terça-feira, 8 de novembro de 2016

Carta pro J. D. Salinger

Caro Jerry Salinger

Como sei que você continua antenado com o que acontece em seu nome pelo Mundo, vou mandar pro astral da internet um recado prá voce ler.

Fique de boa. Não vou encher muito seu saco, cujo saco todo mundo sabe já encheu faz tempo.
Andam dizendo por aqui que você foi importante demais por ter sido o primeiro a por no papel impresso a voz da juventude  norteamericana. E isso é só o que falam de bom.

Dizem também que voce era um pedófilo sofisticado e que inspirou meia dúzia de mass murder. Que A Guerra te deixou tão travado na adolescência que nunca amadureceu e se tornou homem. Que nunca mais escreveu nada de bom e que, na melhor  das hipóteses, tinha uns parafusos de menos na cabeça.

Não vou dizer que te entendo. Mas, se no seu tempo já era difícil ser um INDIVÍDUO, voce não imagina o quanto hoje isso é impossível, penoso e tudo mais.

Aqui tá foda!

Andei pensando em voce ao dar uma  encadernada no The Catcher in the Rye.

Tenho o livrinho faz tempo e tava bem baleado. Aí juntei mais umas informações, dei uma consertada e encadernei.

Me deu a idéia de fazer a capa com um couro preto para representar o abismo e outro couro claro amarelinho para o campo de centeio, entende?

Para a ilustração, fiz aqueles bonequinhos de papel de mãos dadas, conhece?  Cortei em papel grosso e prensei no couro claro ainda úmido de cola. O negócio é para ficar parecendo um bando de crianças à beira do abismo. Ficou mais ou menos.

Fico pensando que é o que acontece hoje aqui: A gente indo pro buraco todo mundo junto, ainda cantando alguma musiquinha meio besta, de mão dada e tudo.

Tá bom! Gosto mais da metáfora do abismo como lugar onde sacrificamos nossa inocência e Holden nos socorre se tivermos sorte.

Agora o título.

“O Apanhador no Campo de Centeio”, prá mim, é uma merda de título apesar de voce ter aprovado, dizem. Mas é melhor do que no português de Portugal: “Agulha no Palheiro”. E muito melhor do que a proposta dos tradutores brasileiros “A Sentinela do Abismo”, bem no estilo pomposo-meloso que todo mundo curte por aqui.

Então mandei ver só “THE CATCHER”.

O livro é meu, o trabalho é meu. Mas te dou essa satisfação,  se por via das dúvidas voce ainda estiver de olho nas coisas por aqui.

Fique na tua aí.

Seu admirador


Pedro Malanski

Fotos do livro encadernado 




Folha de Guarda com marcador no mesmo papel

Capa da edição brasileira

Fotos de Informações que adicionei ao livro original

Capa de Edição em capa dura 

Última foto conhecida de Salinger, 2008

Foto de Salinger na contracapa das primeiras edições americanas, mandou retirar.



É ISSO.

terça-feira, 14 de abril de 2015

O Ler e o Não Ler

Ler é divertido.
Ou deveria ser.
Mas é caro e o produto é de péssima qualidade. Péssima relação custo-benefício.
Ler tem sido superestimado.
"É essencial para a educação.
"É uma forma de ampliar o vocabulário.
"As pessoas que gostam de ler são mais inteligentes, cultas e bem informadas.
"Você não leu o livro do filme?
"Ler é muito importante para o exito social.

"Ler é um hábito culto e elegante" é uma mentira que tem sido aplicada com muito sucesso pelo mercado editorial. com o objetivo de vender livros enormes a alto preço para um grande número de leitores fidelizados por intermináveis trilogias e pentalogias cheias dos mesmos clichês e truques de redação.


A Mística da Coisa Impressa
já me fez perder tempo com muita porcaria.




sábado, 3 de março de 2012

O Suicídio na Ficção

Lembrar das obras de literatura onde o suicídio é tema, recurso ou desfecho, daria ao meu texto a obrigação de mencionar os mesmos de sempre. O indefectível “Werther”, de Goethe, a conhecida “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert, o nacional “São Bernardo”, de Graciliano Ramos e o mais popular de todos, mas quase nunca associado ao tema suicídio, “Romeu e Julieta” de Shakespeare, que ao fim e ao cabo termina com o casal de amantes tirando a própria vida. São obras de ficção desde sempre e unanimemente classificadas como obras de literatura.

Mas existem outras obras cuja importância seria muito menor se o tema fosse retirado de seu enredo. Por sua popularidade e por suas qualidades relativas, não são classificadas como “Literatura”, mas exercem sobre nossa Sociedade enorme influência.

Por esse motivo, o título não é “O Suicídio na Literatura”, mas “na Ficção”. 



O Pequeno Príncipe

Romance de maior sucesso de Antoine Jean Baptiste Marie Roger Foscolombe de Saint-Exupéry filho do conde e condessa de Foscolombe (29 de junho de 1900, Lyon - 31 de julho de 1944, Mar Mediterrâneo) foi um escritor, ilustrador e piloto da Segunda Guerra Mundial.


Faleceu durante uma missão de reconhecimento sobre Grenoble e Annecy. Em 3 de novembro, em homenagem póstuma, recebeu as maiores honras do exército. Em 2004, os destroços do avião que pilotava foram achados a poucos quilômetros da costa de Marselha. Seu corpo jamais foi encontrado.

Suas obras foram caracterizadas por alguns elementos em comum, como a aviação, a guerra, a solidão e a fidelidade. Também escreveu artigos para várias revistas e jornais da França e outros países, sobre muitos assuntos, como a guerra civil espanhola e a ocupação alemã da França. Pessoalmente elejo sua obra póstuma “Cidadela” como a mais densa e impactante.

O Pequeno Príncipe (O Principezinho, em Portugal) (1943), é o romance de maior sucesso de Saint-Exupéry. Foi escrito durante o exílio nos Estados Unidos, quando fez visitas ao Recife. Conhecendo suas outras obras é fácil imaginar que um livro assim pudesse ter sido escrito por um homem como ele. Seus livros são cheios de melancolia, sentimentalismo e sensibilidade, revelando um homem em constante atrito emocional com o mundo à sua volta.

O Pequeno Príncipe é uma obra simples e direta, repleta simbolismos, constituindo uma metáfora do ser humano quando confrontado com a sociedade e suas regras e convenções. É a história de alguém que sai de seu mundo, confronta-o com outros mundos e, finalmente, retorna a seu mundo original procurando a ajuda do veneno de uma serpente.

Assim, o Príncipe aborta qualquer possibilidade de se tornar Rei. Como se fosse a criança e adolescente que sempre conheceu apenas o mundo seguro garantido por seus pais, morou na casa que não era sua, alimentado e vestido sem que para tanto tenha trabalhado. Confrontado com a necessidade de habitar por sua própria conta o vasto mundo à sua volta, elege matar a si mesmo. Assustado com a aridez do deserto que o recebeu, refugia-se no suicídio como rota de fuga. Quando chega a hora de assumir as obrigações e responsabilidades do Rei, não é capaz de antever a plenitude, a liberdade e o poder dessa nova condição, interrompendo a própria vida.

É a mais escrachada obra de ficção sobre o suicídio,  livremente indicada para crianças e adolescentes.



Canopus em Argus

Nascida Doris May Tayler,  Doris Lessing, nasceu em Kermanshah, no Irã, em 22 de outubro de 1919. Logo cedo, aos cinco anos, partiu com seus pais, o capitão Alfred Tayler e sua mulher Emily Maude Tayler, nascidos na Inglaterra, para a Rodésia do Sul, atual Zimbábue.

Ao completar sete anos, foi enviada a uma escola interna, sendo posteriormente remanejada para uma instituição escolar católica direcionada somente para meninas, localizada em Salisbury, hoje chamada de Harare, capital desta nação africana colonizada pelos britânicos.

Depois de contrair matrimônio duas vezes, com sua vida afetiva frustrada, ela se transfere com o filho Peter, em 1949, para a Inglaterra, levando em sua bagagem uma já vasta militância política. Neste país ela dá à luz seu primeiro romance, The Grass is Singing, no qual Lessing narra a profunda interação entre a esposa de um fazendeiro branco e sua empregada negra. O livro logo se torna um êxito no continente europeu e nos EUA.

Doris obteve, em 2007, seu reconhecimento máximo ao ser escolhida para receber o Prêmio Nobel de Literatura, entregue pela Academia Sueca. Esta instituição justifica a premiação como uma recompensa por seu poder de traduzir a questão feminina com um tom cético, vigoroso e idealista.

O seu trabalho mais volumoso quase nunca é citado em suas biografias, pois escapa à definição de literatura. A série “Canopus em Argus”, composta por cinco livros. O primeiro deles, “Shikasta”, é o melhor e o mais interessante, apesar da premissa que muitos consideram pseudo-ficção científica. A Terra é um campo de batalha mental-físico-ideológico entre os seres de Canopus, de Sírius e o maléfico império Shammat, e ela faz com que toda a tecnologia deles soe para nós como esoterismo, a começar pela Zona Seis, o método de transporte favorito desses alienígenas, e que não tem nada a ver com naves espaciais, mas com o método que nos acostumamos a chamar de reencarnação.

O viajante de Canopus, em sua missão de observar e, às vezes, interferir no curso dos acontecimentos terrenos, procura um rio para se afogar, uma arma para atirar em si mesmo ou qualquer método letal que o liberte da forma humana para viajar de volta à sua gloriosa civilização.

Só mesmo eu para encontrar este ponto em comum entre Sait-Exupéry e Doris Lessing.


A leitura sempre causa algum efeito no leitor. Em leitores normais, com alguma solidez mental e emocional, os efeitos são superficiais e passageiros, não se prolongando além de alguns dias. A informação é obtida, seus conteúdos são processados e absorvidos conforme as preferências próprias do leitor. Em seguida passa para outro livro,com outro assunto, para fruir novas aventuras e obter novos conhecimentos.

Agora, quando os temas são fortes, podem afetar o leitor além do razoável, quando endossados pela crítica, promovidos pelo mercado e, principalmente, romantizados e idealizados.

É preciso que as pessoas se conscientizem que o personagem Príncipe é apenas um menino solitário, ignorante e frágil, criado num contexto de Segunda Guerra Mundial por um homem melancólico, traído pela esposa e desiludido do mundo. Assim como Doris Lessing é uma mulher que se cansou de cortejar a literatura, que nunca lhe deu um padrão de vida razoável, para ingressar no lucrativo mercado de obras populares, vender em grandes quantidades e viajar pelo mundo como uma celebridade pop. Muito mais tarde, recebeu um merecido Nobel e um bom dinheiro como prêmio, a meu ver muito tarde.


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Livros que se foram

Dias de ira, quando perdi todos os livros que possuí.

Desde então, quando me falam de algum livro ou quando vejo um livro novinho na prateleira da livraria, um frase amargurada me ocorre: " Eu tinha esse livro."
 
Foi assim.

Não era nenhuma biblioteca, ou seja, não era um acervo representativo de um gênero literário ou de uma especialidade. Era só uma livraiada mesmo. Uns dois mil reunidos no passar dos anos, sem nenhum critério particular. Mas tinha muita coisa boa. Se quisesse cansar a paciência dos outros falando de alguns deles, ia ficar uma coisa nostálgica comum a qualquer pessoa que fica remoendo perdas. E talvez pouca gente ia entender, dependendo do apego de cada um a livros.

No começo, falava alto a frase "Porra! eu tinha esse livro...", bem assim com palavrão no começo e reticências no fim. Aos poucos fui me dando conta da tolice. Para uns parecia um lamento, para outros soava como uma mentira mesmo, ou ainda uma bravata onde eu me vangloriava de ter lido e ainda por cima ter possuído aquela obra. Isso quando não estragava tudo revelando: "Eu tinha todos os livros desse autor!" E tinha mesmo.

Mas continuo dizendo tanto uma como outra frase, agora mentalmente. Só que assim dói mais.

Afinal, perdi os livros por ter ido embora de um casamento ruinoso. Ela, com raiva por eu ter superado finalmente, vendeu tudo por trezentos reais para o XXXXXX, um sebo aqui de Curitiba. Podia ter sido para o Iraci, para o Espanhol ou mesmo feito uma enorme fogueira, o efeito seria o mesmo. Foi a gota d'água, mesmo depois de anos de judiação, traições e loucuras.

A reação dos amigos foi veemente. Queriam alegar apropriação indébita dela e receptação do sebo. E estou falando de uma advogado e de um promotor de justiça! Eu, catatônico, deixei ficar, mesmo depois de ir na loja e ver que um dos livros estava na vitrine central e vendido a sessenta reais, "A Imortalidade da Alma", não me lembro do autor, edição de 1912.

A gente tende a inventar mecanismos de defesa para lidar com traumas. O meu foi concluir que era até um alívio ficar livre de toda aquele lastro de livros e centenas de outras quinquilharias, deixando para trás toda aquela bagagem inútil para recomeçar livre e leve.

È... está certo e racionalizado, mas tinha tanto livro bom...

*
Esse post teve efeitos indesejados.
O dono do Sebo não gostou que eu o tivesse mencionado e pediu que eu retirasse a menção à sua Loja, pois não queria nenhuma menção negativa aparecendo na pesquisa do Google. Não era uma menção negativa, apenas revelei o quanto pagou pelos meus livros.
Um sebo é um sebo. Um estabelecimento que vende livros usados não é um espaço cultural. Não importa que se considere um pavão, pois todo mundo sabe que é um abutre que explora a ignorância e a necessidade quando compra e explora a ignorância e a paixão quando vende. 
Como o "LEOPARDO" não é um blog com compromissos, é só espaço para falar de livros, resolvi omitir a verdade, rendendo-me à censura, pois mesmo um abutre pode sempre cagar na nossa cabeça.
Fui ao sebo tentar reaver os livros e me ofereceram apenas um DESCONTO, ficando assim mesmo além de minhas possibilidades na época.

ADENDO
Lista de alguns que tem feito falta ultimamente.
- todos da coleção A Vida Cotidiana, publicados em Portugal e comprados com muito custo na Livraria do Chain.
- O "Livro Verde da Minha Campanha" de Plínio Salgado, onde ele cita minha bisavó falando de meu tio-avô, com uma dedicatória autografada pelo autor. Nada raro, apenas de família e caro.
- "Compêndio de Filosofia".
- Uma centena da Coleção Argonauta, ficção científica, publicado em Portugal.
- Coleção completa de "Amazing Stories" na versão em protuguês publicada pela Editora Globo, de PortoAlegre.
-Muitos da coleção "A Vida Cotidiana..." coisa boa.
- "Inri Cristo, Furacão sobre o Vaticano S/A" com dedicatória do próprio e do autor, uma curiosidade.
- Todos de Herman Hesse.
- "Religião na Dialética Socialista", uma pérola editada em Porto Alegre, mais não me lembro.
- "Resumo da Origem de Todos os Cultos" de C. F. Dupuis, cópia xerox que o Gino me deu.
- "Mein Kampf", de A. Hitler, que o Chain me deu.
- "Ulisses" de James Joyce, primeira edição brasileira,que sofri para encadernar todo em couro de jacaré.
- "Poésie et littérature française", que língua para poesia!
- Todos de EliphasLevi.
- "Documentário Arquitetônico"  de José Wasth Rodrigues, fascículos com estampas desse autor, publicados em 1944/1945. Tinha todos, encadernei em dois volumes. Só me sobraram dois fascículos.
 - Volumes das "Obras Completas de Sigmund Freud", o "O homem e seus símbolos" de K.
Young e tantos outros do tempo de Faculdade.
José Wasth Rodrigues - São Paulo, Casas Antigas - Documentário Arquitetônico, Fascículo I, Estampa 1

sábado, 21 de janeiro de 2012

1808

Levei muito tempo entre ouvir falar do lançamento do livro “1808” de Laurentino Gomes, em 2007, e finalmente comprar e ler por esses dias de Janeiro de 2012. E este foi meu erro.

Quando a gente fica adiando a leitura, acaba criando expectativas quanto ao livro. Esperando finalmente encontrar o muito que desejo saber sobre esse momento em nossa história, fico idealizando que o autor me presenteie com a mesma riqueza de texto e detalhes que uma vez encontrei em autores como Jacques Soustelle, Michel Chatelet e Suzanne Chantal, quando me contaram histórias de Portugal, do Antigo Egito, da India nos tempos de Jesus e por aí afora, todos trazendo fatos bem colocados, informações sólidas e abundantes, sempre com texto fluente e dinâmico.


Em “1808”, o subtítulo “Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil”, fica só na promessa e não conta esse “Como”.


Comecei a ler embalado e o começo parecia bom, mas o autor não foi feliz na sua empreitada.


Logo notei que, das 368 páginas, 58 vinham com notas e bibliografia. Até postei no facebook do autor que preferia mais de bom texto e menos de pura mania de quem faz tese de mestrado e mesmo trabalhos escolares. Se o texto é bom, me convencerá, Se não é, não adianta invocar a Biblioteca Nacional inteira.


Em “1808” o autor cometeu o uso excessivo de aspas ao transcrever textos de cronistas da época, ao invés de apenas usar estas informações para, na sua própria redação, compor um painel dos usos, costumes e crenças daquele ano no Brasil. Tornaria a leitura mais dinâmica e adequada aos novos leitores. Como ficou, compôs uma colcha de retalhos com muitos fragmentos repetidos, outros fora de contexto e todos muito evidentemente coligidos segundo a idiossincrasia do autor, ficando a impressão de que seu prisma é embaçado por preconceitos e seu ângulo limitado por ideologias, citando apenas o que é de seu particular interesse. A sensação final é a de infidelidade aos fatos históricos.


Talvez tenha tentado popularizar o trabalho ao utilizar elementos da Cultura Pop, mas me pareceu ingênuo e pueril ao comparar uma figura histórica com o Super-Homem e citando algumas vezes – pasmem – o filme de Carla Camurati, Carlota Joaquina, Princesa do Brazil .
Noutras vezes, critica a corrupção e o nepotismo como qualquer jornalista sem pauta faz hoje em dia. Nestes momentos deixa clara sua ideologia e rusticidade, desperdiçando espaço precioso em folhas de papel. Qualquer um sabe que todos os governos da Terra são feitos da mesma péssima matéria prima e quem já conheceu outros reis sabe que são excêntricos, loucos, brilhantes, como Luis XIV, Jorge III, Pedro, O Grande e outros de todos os tipos, muito poucos normais.


A impressão geral após a leitura é de que o autor escreveu cada linha como se fosse realmente um roteiro estendido do filme de Carla Camurati, que é uma obra artística onde todas as licenças são permitidas.


Reforçou preconceitos e consolidou estereótipos, como faria o Casseta&Planeta, com informações que já são do conhecimento de qualquer médio leitor brasileiro.

Procurou o ângulo mais politicamente correto possível do ponto de vista da “intelectualidade” corrente nos dias de hoje.


Quanto a mitigar a sede do leitor por informações, descrevendo os tempos de D. João VI no Brasil, compondo para nós um painel verossímel e fiel, esse livro “1808” é um fracasso.

Será que vou ler o próximo?
 

sexta-feira, 4 de março de 2011

Literatura Naif


Os ingênuos na literatura ou a literatura dos ingênuos.

Estou me propondo um trabalho muito maior do que a minha capacidade, reconheço. Como diria um escritor naif:: é muita areia para o meu caminhãozinho. A idéia é estabelecer um critério para distiguir a literatura profissional da literatura amadora e categorizar os autores ingênuos. Se não der em nada. pelo menos estou criando a categoria "intelectual naif".

Como nas Artes Plásticas, o rótulo de "naif" - eufemismo elegante para "ingênuo" - não é pejorativo. O artista naif não utiliza as regras elementares de pintura em suas obras, como proporção, perspectiva, claro-escuro, incidência de luz e outras formalidades, podendo ser ou não ser formado em artes plásticas. Quanto ao escritor naif, também não faz uso das regras elementares de narrativa, recorrendo a termos, figuras e metáforas simples, frequentemente chavões e estereótipos de uso comum. kitsch?

Logo me dou conta que já foram impressos milhões de livros de milhares de autores exatamente com essas características, principalmente  livros de entretenimento. Os romances em papel barato nas prateleiras das bancas de revista, as histórias de proselitismo do espiritismo ou dos evangélicos, livrinhos de bolso com aventuras de espionagem ou de cowboys, material para o público adolescente,  exemplares que o autor paga para imprimir e vai vendendo às próprias custas. Lugar comum entre todos eles, a superficialidade e o amadorismo.

Alguns são pretenciosos e se oferecem em formato padrão e capas elegantes, distribuídos por editoras poderosas. Seus autores são figuras de alguma ou muita celebridade em outras áreas de atividade, que resolveram explorar o mercado de consumo com o produto livro. Também surgem devido ao interesse do mercado leitor por um assunto em moda, como O Caçador de Pipas e O Livreiro de Kabul. Outros, são acompanhados de marketing pesado e associado a filmes de sucesso, como O Código Da Vince. Todos tem em comum um amontoado de lugar-comum.

Contudo, nenhum é péssimo, horrível ou indigesto, cada um deles encontrando seu público no mercado pois, procurando bem, cada um tem seu mérito.

Na prática, quais os vícios de gramática característicos de um escritor ingênuo? Ocorrem-me alguns, dentre os tantos que tornam um livro difícil de ler, pois o texto fica cansativo e interminável.

I - O uso indiscriminado do "que"

Na frase "E compreenderam, alguns mais cedo que outros, que o Apocalipse estava em curso, e começaram a se preparar para o Armagedon, a batalha final que decidirá a soberania de Haled, que estará aberta à invasão espiritual quando a menbrana cair." do bom livro "A Batalha do Apocalipse", de Eduardo Spohr. Por certo existem muitas outras formas de escrever essa mesma frase sem o uso do "que", todas tornando-a mais direta e clara. Mas o autor optou pela forma indireta e  usou o "que" para auxiliar o próprio pensamento na sua elaboração. O "que" passa ao leitor a impressão de dificuldade do autor em se expressar, como se fosse penoso ou como se tivesse pressa em concluir o trecho e passar logo ao próximo e emocionante patamar da obra. Abrindo o livro ao acaso, são raras as frases onde o "que" não aparece uma ou duas vezes.

Há outro livro, um clássico da literatura (?) intragável, mas é obra traduzida e, portanto, pode ser produto de um tradutor naif ou de um tão ingênuo quanto o original. Chama-se "A Cidade dos Hereges" de  Federico Andahazi, e o trecho, abrindo o livro ao acaso, é "Uma lenda atribuída a Eusébio, que garantia ter se documentado nos arquivos de Edessa, dizia que ao adoecer o Rei Abgar V,  rei de Edessa, e vendo que a sua vida se apagava, desesperado mandou um emissário chamado Ananias para que visse Jesus e o convencesse de que acudisse ao seu reino."
 Aí estão alguns elementos do texto chato:  muitos "ques", argumentos baseados em terceiros baseados em terceiros e tom professoral.

II - Trechos didáticos professorais

A trama segue e a ação é descrita, quando o texto é aparentemente interrompido por uma série de explicações. Neste momento, o autor costuma por na boca do personagem explicações didáticas sobre algum detalhe da história, as quais julga relevantes para instruir o leitor e reforçar as premissas usadas. Nunca parece coisa do personagem. Parece mais que ele foi possuído por algum professor chato que veio nos dar uma aula de história, nos explicar a teoria dos mundos paralelos ou fisiologia dos corpos mentais e astrais sob o ponto de vista teosófico. Muitas vezes, o onipresente narrador muda o próprio tom e sem aviso se mete a nos descrever paisagens de cidades e lugares, como se fosse um enfadado professor de geografia ou um cansado guia turístico.

Acontece durante toda a trilogia "MiIlenium", de Stieg Larsson, nestes momentos o texto para de fluir, parece uma flor artificial no meio do jardim, com a naturalidade de um ator de novela tendo que fazer merchand entre um texto e outro da cena. Até na boca do Professor Langdon, o Código da Vinci perde o ritmo a cada ladainha explicativa.

O leitor se sente ou enrolado ou subestimado nesses momentos. Se a premissa é tão insustentável que precisa uma aula para se manter, abandone-a. Talvez o autor pretenda demonstrar seus conhecimentos nas diversas áreas do saber humano e por essa via cativar o leitor. Talvez, ainda, tenha se deixado influenciar pelo Editor ou por algum leitor crítico, incluindo no texto explicações posteriores à sua conclusão, supostamente destinadas a facilitar a compreensão da obra, porisso soando tão artificial.

É pura arrogância.

III - Contém gordura saturada

Utilizando ingredientes destinados a cativar o paladar do leitor, os livros de puro entretenimento causam a obesidade mental como desagradável dano colateral.

Os sintomas são tão claramente visíveis quanto aqueles causados pela comida fast-food e o excesso de frituras na alimentação, como obesidade, entupimento de veias e descontrole de pressão.

Incorporando temas de grande apelo popular e de leitura fácil e fluente, acabam por afetar a capacidade mental do leitor, que passa a ver reduzido seu vocabulário e limitado o seu raciocínio e agilidade.


Há leitores viciados neste tipo de livro. Acostumando-se a leituras fáceis, passa os olhos pelo texto quase sem prestar atenção e apenas colhendo a descrição da ação, sem conseguir mais interpretar realmente o que lê. Desta forma, os livros de diversão podem ser enormes, compondo trilogias e pentalogias sem fim, uma vez que não são realmente lidos, servindo apenas à voracidade do leitor em sua necessidade de escapismo e ao interesse do mercado editorial. Aos glutões, muita comida.

Tais livros utilizam recursos desleais para cativar o leitor. O mestre Stephen King domina inteiramente este técnica (truque). Inicia a obra com uma situação praticamente insolúvel ou um monstro aparentemente invencível, para resolver no final com um artifício simples ou o heroísmo solitário de uma criança. Ver o final anti-climax de "A Torre Negra" e o monstro que virou otário de "A Coisa".

Outros, transmitem informações superficiais e estereotipadas de uma época, criando personagens de contemporaneidade suspeita, como em Bernard Cornwell. Além disso, aproveitam-se de ganchos místico-religiosos para aumentar o interesse na obra, como nas trilogias da "Busca do Graal" e "Crônicas do Rei Arthur", embasando suas premissas históricas em dados evidentemente especulativos e até fictícios.

IV - Excesso de Adjetivação

Há uma distância entre um texto de substância e um texto vazio: sua medida é o excesso de adjetivação. Quando o escritor diligente procura desesperado palavras grandiosas para contar sua excelente história, acaba estragando tudo. Especialmente quando constitui simples redundância e nada acrescenta.

Em outro trecho de Eduardo Spohr " A aparência desse furioso infernal é como a de um gigante, alto como dois homens comuns e gordo como três ursos selvagens. O abdome ditalado, sempre à mostra, vive sendo acariciado pelas enormes mãos", e por aí vai, com elementos quebrando a rotina da narrativa por acréscimos desnecessários. (Não tenho nada contra esse livro, apenas estou lendo no momento).

V - Idéias Emprestadas

Não gosto só de ler, também me divirto assitindo. Fico pasmo quando assisto o seriado "Outcasts"   (BBC UK) e identifico a idéia central do livro "Crônicas Marcianas" de Ray Bradbury. Procuro bem devagar na ficha técnica da série e não encontro nenhuma referência, pesquiso mais e encontro no blog do 'autor', Ben Richards, suas alegadas inspirações para chegar ao produto final. Fala de "O Senhor das Moscas" e outros, mas nada sobre Martian Chronicles. Só achei um comentário curto de Val, lá no meio, perguntando "Ray Bradbury's Martian Chronicles anyone?". Não sou só eu.

Não acredito em fantasmas, bruxas, rótulo de xampu e orelha de livro. Tudo um bando de mentirosos. Quando a orelha diz que o autor é uma mistura de Tolkien com alguma coisa, é pegadinha na certa. Os caras estão mentindo para vender, tanto quanto mentem os xampus quando afirmam que vitamina pode entrar no corpo através da pele. Para subir, mentem ou assaltam os ombros de um gigante. Assim dizem de George R. R. Martin, do "Guerra dos Tronos", ou Game of Thrones, onde a fugacidade de um seriado de TV ousa se comparar à solidez de um clássico. O "Tronos" até que dá para ler com prazer, mas não é inesquecível.

Em publicidade, a gente costumava dizer que "chupava" uma idéia quando copiava um trabalho alheio. Nas diversas formas de expressão, uns chupam de outros sem cerimônia nenhuma.

De volta ao "Apocalipse", o herói passa duzentos anos no inferno sendo chicoteado todo dia até sangrar. Dean Winchester também, no seriado Supernatural, só fica uns 800 anos a mais.  Daí a comparação que já ouvi por aí, de que esse livro é uma mistura de Senhor dos Anéis com Supernatural. Essa não dá para aguentar. Desisto! Estou fora! Cansei! Vou desopilar lendo uma porcaria qualquer.

V - Personagens idênticos

Uma trama qualquer é composta de personagens. Óbvio. Eles são diferentes entre si, cada um tendo sua idade, sexo, formação, origem, cultura, motivação, etecétera. Muito óbvio. O autor ingênuo não pensa assim.

Para o ingênuo todos os personagens falam igual. Seja o herói, a heroína, o vilão, a vítima ou o covarde, todos enfim, falam no mesmo tom monocórdio. Usam os mesmos termos, pois têm o mesmo arsenal de palavras do autor, que não consegue respeitar a personalidade de cada um e permitir que se expressem como lhes seria natural. Se a história é épica, todos são superlativos e grandiloqüentes. Se a história é moral, todos são piegas e lamurientos. Se a história é infantil, todos são simplistas e repetitivos.

Essa limitação do autor cansa o leitor. Pode ser uma solução para quem tem pouco dinheiro para comprar livro, pois livro ruim demora para acabar. Mas ai não diverte ninguém. 

Literatura?

Claro que nenhum deles é literatura. Podem ser chamados disso por orelhas de livro, por releases comerciais e até por resenhas tendenciosas, mas não contém os mínimos elementos para que possam ser alçados a esse nível.

Apenas Naif.
P.S.
Até que enfim terminei "A Batalha do Apocalipse", foi penoso. Do livro ficou uma impressão que demorei um pouco para identificar. É como se tivesse sido escrito por outra pessoa, alguém muito mais velho e em outra época, talvez nos anos 70 ou 80. É só uma impressão.

Kitsch ou ruim demais - Péssimas capas e péssimos livros.


Livros bons e livros ruins, uma boa opinião.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

DAVID FOSTER WALLACE

*
Meu depoimento,
texto inédito
e discurso de formatura.
*
Num pequeno artigo do “Rascunho”, li pela primeira vez o nome do DFW. Era elogioso e superficial, só lamentando que livros anteriores ao “Breves Encontros com Homens Hediondos” não tivessem tradução. Terminava comparando que esse livro menor, se comparado a outros desse autor, parece com você chegar no final da festa, quando já comeram e beberam os melhores salgadinhos e bebidas e a essa hora só tem umas bolachinhas com guaraná. Fui atrás de “Breves Encontros…” e simpatizei. No sentido da palavra usada pelos franceses ao se referir a quem confraternizava com os invasores alemães durante a Segunda Guerra.

*
A facilidade com que mergulha em almas alheias torna o texto convincente e pungente. Não é processo fácil, pois você não age como homem, ou você é ou não é. Você não sente como mulher, você é. E assim por diante. Assim sim simpatizei. Foi irresistível. Apesar de toda uma marketagem que apresentava DFW como um motoqueiro cabeludo, um professor cabeludão, fortão, todo contra tudo e muito na dele. Pura superfície, graças a deus.

*
“Só a morte vem nos mostrar que amávamos muito mais profundamente do que supúnhamos”(Baudelaire). Neste caso, sua morte estúpida mostrou completamente o homem sensível, com uma enorme capacidade de empatia pura, que nele era um poder de ir fundo, procurar, entender, sentir junto e ainda realizar a proeza de por em texto claro a jornada.

*
Lamento, I am sorry, ter pensado que DFW era babaca feito e Sallinger ou pretensioso como Pynchon. Não sei o que ele fez . O motivo de ter se enforcado, Mas, se eu fosse como ele, com esse poder ou maldição, talvez escolhesse o mistério além da vida aos males tão sabidos. Não aceitaria continuar produto pela vida, com milhões cobrando o próximo livro aonde leriam mais do mesmo. Milhares que ouvem sua palestra e aplaudem extasiados e depois vão ver um filme do Batman, um novo Indiana Jones, um novo Exterminador, novas trilogias de mais do mesmo e outros produtos da cultura pop que consomem avidamente e aplaudem igualmente extasiados.

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Eu diria que já disse o que tinha para dizer e não fez diferença. Não teve efeito nenhum. Diria que vocês entenderam e esqueceram em seguida. Diria que queria trazer lucidez e só obtive escravos cegos. Ofereci campos livres e vocês o cercaram com suas grades coloridas. Diria que foi inútil, que não devia ter iniciado esse caminho onde me tornei só mais um produto na prateleira, oferecendo prazer passageiro, ideais eternos só por hoje, amor para sempre até o orgasmo, piadas datadas. Eu diria basta!

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Mas ele não é eu. Meu pai não diria que eu sofria de depressão a vida inteira. Minha mulher saberia o motivo da corda no pescoço. Se eu fosse ele, todos saberiam. Nem que fosse só para vender uma emoção forte no noticiário. Que seria substituída por outra amanhã e depois de amanhã outra ainda. Pois eu não sou sensível até a exasperação, até o insustentável, como ele foi.


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David Foster Wallace (in: Oblivion, 2004)
tradução experimental Caetano Waldrigues Galindo

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Aí bem quando eu estava sendo solto em 1996 a Mamãe conseguiu um acordo em uma ação pequena contra o fabricante de um produto e usou o dinheiro imediatamente para fazer uma cirurgia cosmética nos pés de galinha em volta dos olhos. No entanto o cirurgião plástico fez bobagem e acabou causando alguma coisa na musculatura do rosto dela que fazia que ela parecesse alucinadamente assustada o tempo todo. Eu tenho certeza que você conhece a aparência que o rosto de um indivíduo pode assumir na fração de segundo que antecede o início do grito. Isso agora era a Mamãe. No fim de contas, basta um escorregão da lâmina para cá ou para lá nessa operação e aí você fica com essa cara de alguém na cena do chuveiro do Hitchcock. Aí então ela pegou e fez outra cirurgia cosmética para tentar corrigir aquilo. Mas o segundo cirurgião também fez bobagem e a aparência de susto ficou pior ainda. Principalmente em volta da boca dessa vez. Ela pediu a minha reação honesta e eu senti que a nossa relação exigia no mínimo isso. Os pés de galinha eram de fato coisa do passado agora que a cara dela era uma máscara crônica de pânico insano. Agora ela parecia mais a Elsa Lanchester quando a Elsa Lanchester contempla pela primeira vez o seu futuro companheiro no clássico do studio sytem de 1935, A noiva de Frankenstein. Agora depois da segunda cirurgia estropiada nem óculos escuros ajudavam muito já que a questão da boca escancarada e da distensão mandibular e dos tendões projetados e assim por diante continuava. Então agora ela estava envolvida em mais um processo e quando ela pegava o ônibus com regularidade para ir até o escritório do advogado que ela tinha escolhido eu é que era o acompanhante dela. A gente ia na frente do ônibus em uma das áreas de assentos mais longas que se alinham lateralmente ao invés de frontalmente. A gente aprendeu pelo método experimental a não sentar mais para trás nas fileiras de assentos mais normais que ficam de frente uns para os outros por causa de como certos passageiros visivelmente reagiam quando subiam e realizavam a ação aparentemente reflexa quando começavam a se mover pelo corredor até um assento de brevemente checar os rostos que os encaravam da estreita fileira de assentos que se estendia até o fundo do ônibus e repentinamente viam o rosto distendido e mudamente gritante da Mamãe parecendo olhar para eles com um pavor insensato. E houve uma catadupa desses casos e interações antes de eu me aplicar ao problema e desenvolver um hábitat mais operacional em ângulos retos. Nada nas fontes explica suficientemente o porquê de as pessoas realizarem a checagem de rostos assim que embarcam embora anedoticamente pareça ser um reflexo defensivo em toda a espécie. E eu também não sou um espécime bom para se ter no assento ao lado se ela queria passar despercebida em função de como a minha cabeça fisicamente se eleva por sobre todas as outras em um grupo. Fisicamente eu sou um espécime grande e tenho coloração distinta, olhando para mim você nunca saberia que eu tenho tamanha inclinação para os estudos. Há também os óculos envergados e as luvas especialmente projetadas para o trabalho de campo, não é nada impossível encontrar espécimes nos ônibus mesmo que as pesquisas até o momento não tenham rendido frutos. Não é como se falando às claras se pudesse dizer que eu gostasse de ir com ela enquanto ela exercia todos os seus esforços tentando não permitir que a vergonha da expressão crônica a deixasse com uma aparência ainda mais assustadora. Ou que eu realmente pudesse ansiar por me ver sentado em uma coisa que se pretende uma sala de espera lendo boletins do Rottary duas vezes por semana. Não é como se eu não tivesse outras coisas e estudos com que ocupar o meu tempo. Mas o que é que se vai fazer, as condições da minha liberdade condicional incluem a Mamãe ter declarado sob juramento que assumiria responsabilidade como minha guardiã. E no entanto qualquer um que observasse a realidade da vida conjunta desde a segunda cirurgia concordaria que a realidade era o contrário porque em função do desconsolo e do medo da reações dos outros a ele ela é praticamente incapaz de sair de casa e é capaz de atender às convocações intimantes do advogado para ir ao seu escritório só com a minha presença e proteção durante todo o longo caminho. Além disso eu nunca gostei de insolação direta e me queimo com grande facilidade. Desta vez o advogado sente o cheiro de um lucro monstro se e quando conseguir colocar a Mamãe em um tribunal e deixar um júri ver com os próprios olhos a conseqüência da negligência do cirurgião plástico. Eu também carrego uma valise o tempo todo desde o meu próprio caso. Hoje poderiam chamar a valise de acessório semático para advertir possíveis predadores. Desde a negligência original eu me imunizei primariamente contra a crônica expressão de horror da Mamãe mas mesmo assim posso me ver muito incomodado pela reação de certas pessoas a nós visualmente, algumas pessoas levam um tempo para se acostumar. O volante circular de um ônibus é não apenas maior mas está colocado em um ângulo de incidência mais horizontal que o de qualquer táxi, carro particular ou viatura de polícia que eu jamais tenha visto e o motorista gira o volante com um movimento largo pancorpóreo que se assemelha ao de alguém que varre com o braço todo o material de sobre uma mesa ou uma superfície em uma repentina comoção violenta. E os assentos perpendiculares especiais no segmento anterior do ônibus oferecem um bom ponto de observação para vigiar a luta do motorista com o ônibus. E eu também não tinha nada contra o menino de jeito nenhum. E também não há nada em qualquer determinação estadual, regional ou local que restrinja as variedades que você pode estudar ou que sequer estipule que cultivar mais do que uma certa quantidade delas constitua um risco imprudente ou um perigo para a comunidade em geral. Se a consulta é de manhã aí o motorista às vezes fica com um jornal dobrado em um canto perto da caixa automática de moedas ou bilhetes que ele tenta espiar enquanto espera nos sinais mas não é que ele vá conseguir ler muito desse jeito. Ele tinha só nove anos o que foi repetidamente enfatizado como se a idade dele de alguma maneira reforçasse a acusação de negligência por minha parte. Uma espécie asiática comum tem não apenas os símbolos semáticos ventrais mas uma linha vermelha reta nas costas, que leva a seu nome nativo, Linha vermelha em costa. Testes padronizados confirmaram que eu tenho tanto uma inclinação estudiosa quanto uma extraordinária memorização para o estudo o que ela nem tenta negar. Eu desenvolvi a teoria de que o motorista espia o seu jornal e relutantemente torna a dobrá-lo e o recoloca no seu canto no sinal verde para assinalar a paralisada repulsa que sente pelo seu ganha-pão e um psicólogo indicado por um juiz poderia diagnosticar o jornal como um pedido de socorro. Nosso hábitat usual agora é o assento que fica do mesmo lado da porta do ônibus minimizando qualquer probabilidade de que alguém que embarque tenha uma visão frontal e repentina da expressão dela. Sendo essa também uma lição aprendida à moda antiga. O único interlúdio mais leve foi que quando trouxeram o espelho e as primeira bandagens cirúrgicas saíram aí não era possível de início afirmar se a expressão do rosto era uma reação ao que ela estava vendo no espelho ou era ela mesma o que ela estava vendo e era esse o estímulo que provocava os ruídos. A própria Mamãe, que é uma fêmea de coração decente, ainda que vaidosa, amarga e tímida, mas que não é um colosso nas estradas do intelecto humano, para dizer francamente, não podia afirmar de início se a expressão de insano terror era a resposta ou o estímulo e se era uma resposta então uma resposta a que coisa no espelho se a própria resposta era a expressão. Causando uma desorientação sem fim até que a pusessem sob sedação. O cirurgião estava apoiado na parede com a testa contra a parede uma reação comportamental que sugeria, Sim houve efetivamente um problema com os resultados da cirurgia. O ônibus é porque a gente não tem carro, uma situação que esse novo advogado agora diz que pode resolver em um estalo. A coisa toda estava cuidadosamente armazenada e protegida e até a acusação admitiu que se ele não estivesse fuçando no telhado da garagem dos outros não havia como ele ter tido qualquer contato com elas. O que gerou os termos da condicional. No começo também era interessante no ônibus ver como os passageiros diante de qualquer vislumbre da expressão do rosto dela por reflexo se viravam para olhar para qualquer das janelas do ônibus à qual achassem que a Mamãe parecia estar reagindo com tal horror facial. O medo que ela tem do filo dos artrópodes vem de longa data o que é a razão de ela nunca ter se aventurado na garagem e poder argumentar ignorantia facti excusat, um termo jurídico. Ironicamente vem daí também o fato de ela viver espirrando R….d© apesar das minhas repetidas advertências de que essas espécies são resistentes à resmetrina e à aletrina trans-d. Os ingredientes ativos do R….d©. É bem verdade que ser mordido por uma viúva é um modo ruim de morrer em função da poderosa neurotoxina envolvida o que levou um médico lá atrás em 1935 a comentar, não me recordo de ter presenciado dor mais abjeta manifestada em qualquer outra condição médica ou cirúrgica enquanto que a toxina indolor da loxosceles reclusa ou aranha-marrom causa apenas necrose e severa perda de tecido. As reclusas manifestam no entanto uma agressividade natural de que as espécies de viúvas jamais compartilham a não ser quando ativamente perturbadas. O que ele fez. O interior do ônibus é de um plástico cor-de-carne com anúncios de serviços médicos e jurídicos dispostos sobre as janelas. Muitos par español. A ventilação varia segundo critérios tais como a lotação. A fobia se torna tão extrema que ela leva uma lata na sacola do tricô até que eu sempre encontro antes de sairmos e digo com firmeza, Não. Em um ou dois momentos lamentáveis de insensibilidade também eu fiz piadas sobre pegar o ônibus até as cercanias dos Estúdios e levar a Mamãe para um teste como extra em um dos muitos filmes de hoje em dia em que multidões de extras são pagas para olhar para cima aterrorizadas por causa de um efeito especial que só depois é inserido no filme através de processos informatizados. Do que eu me arrependo sinceramente, afinal de contas eu sou todo o apoio que ela tem. Na minha opinião no entanto é algo exagerado dizer que uma área frágil em um teto de garagem de vinte anos de idade é equivalente a não exercer os devidos cuidados ou esforços. Enquanto que Hitchcock e outros clássicos usavam apenas efeitos especiais primitivos mas com resultados mais aterradores. Isso para não falar de ele ter invadido o terreno e não ter nada que fazer lá em cima afinal. No depoimento. Para não falar nada de se argumentar que não prever que um invasor venha a cair atravessando um telhado de garagem e destruindo totalmente um complexo e dispendioso complexo de recipientes de vidro temperado e esmagando ou pelo menos incomodando uma grande quantidade de espécimes e inevitavelmente, devido ao incidente, acarretando certas evasões e a penetração da vizinhança circunstante equivalha a eu não ter exercido plenos cuidados. Sendo esse o meu argumento para preferir os clássicos do antigo cinema de horror. Recusando jamais colocar a valise sob o assento eu a mantenho no meu colo durante as freqüentes viagens. A minha posição durante todo o procedimento foi de um profundo e natural pesar pelo menino e sua família mas de que o infortúnio do que tinha acontecido como resultado disso não justificava acusações histéricas ou inverídicas de qualquer espécie. Um assessoramento de qualidade teria sido capaz de traduzir esse raciocínio para uma linguagem jurídica funcional em audições legais e discussões in camera. Mas a verdade é que o assessoramento se verifica abundante se você é o agressor mas não se você é meramente a presa, eles são parasitas, a TV diurna está infestada pelos seus comerciais que incitam o espectador a esperar pacientemente pela oportunidade de atacar, tratamos em uma base de percentagens, sem qualquer espécie de taxa se você é o agressor! Dava para vê-los saindo de todas as frestas depois do processo original da Mamãe. De fato ninguém sequer sabe como a neurotoxina da viúva opera para produzir dor e sofrimento tão abjetos em mamíferos maiores, a ciência fica sem resposta quanto a, evolutivamente, que vantagem existe para um veneno em muito excedente ao necessário para que esse espécime singular mas comum domine sua presa. Com freqüência a ciência se vê confusa diante tanto da luminosa viúva quanto da reclusa de aparência mais normal. E mais aqueles que dizem que realmente vão meter mãos à obra e trabalhar duro e lutar mesmo por você são uns frouxos como o tal suposto especialista em negligência da Van Nuys que a Mamãe recrutou. De outro ponto de vista a histeria teria sido quase cômica já que qualquer ambiente tão desleixado quanto a nossa vizinhança circunstante já estará naturalmente infestado por elas em todas as casas precárias e atulhadas. Tendo elas seu elemento nativo na abundância de abrigo que o entulho gera. Encontram-se espécimes com grande variação de tamanho e de agressividade nos cantos dos porões, embaixo das prateleiras dos paióis, garagens e armários de roupas, atrás de grandes eletrodomésticos e nos inumeráveis recônditos de entulho abandonado e jardins mal cuidados. Favorecendo particularmente as viúvas os ângulos retos mal iluminados para a construção das suas teias. Nos ângulos retos da maioria das estruturas no lado da sombra embaixo das lajes por exemplo nos meses de verão. Se você sabe onde procurar. Por isso os óculos transparentes e as luvas de poliuretano serem indispensáveis mesmo no box onde os ângulos retos podem ser invadidos mesmo em poucas horas de ausência. Sendo as viúvas há muito conhecidas como aplicadas tecelãs. Ou do lado de fora do ônibus em movimento nas palmeiras embaixo das quais eles ficam tão ingenuamente na sombra esperando os seus ônibus, Alugue uma escada e examine com cuidado o lado de baixo dessas frondes qualquer dia! dá vontade de gritar pela janela. Depois de condicionado a saber onde procurar elas com freqüência são observáveis em toda parte escondendo-se onde estão plenamente visíveis. Sendo a paciência outra marca registrada. Este hábitat e também mais para o interior ambos contêm a variedade mais exótica da viúva rubra cuja ampulheta ventral é marrom ou castanha assim como uma das duas espécies menores marrons ou cinzentas do hemisfério nas regiões desérticas mais-do-interior que preferem climas áridos. Faltando ao vermelho da viúva rubra no entanto o enfeitiçante lustro da familiar variedade doméstica negra, trata-se mais de um vermelho fosco ou opaco, e elas são raras e ambos os espécimes escaparam no infortúnio do menino e não foram readquiridos. Aqui como com tanta freqüência no reino dos artrópodes a fêmea é também dominante. Para ser franco a dor e o sofrimento da Mamãe apareceram algo exagerados na descrição do primeiro processo de negligência na verdade ela tosse menos que durante o seu próprio depoimento. Longe de mim no entanto desmenti-la graças ao peso do sangue. Sentada em casa com óculos escuros como sempre tricotando enquanto monitora as minhas atividades com o seu aparelho bucal trabalhando em vão. Cientificamente no entanto um grande mamífero teria de inalar grandes quantidades de aletrina trans-d para qualquer dano permanente surgir o que como previsto de fato influenciou a modéstia do acordo que ela conseguiu. A verdade mesmo é que menos de um centímetro para um lado ou para outro é diferença entre lisos olhos juvenis e a expressão crônica de Vivian Leigh no chuveiro no clássico de 1960 daquele título. A valise é ventilada em minúsculos pontos escolhidos em cada canto e 2.5 dúzias de aparos de poliestireno distribuídos por todo o interior podem proteger os conteúdos de impactos ou traumas. A complexidade do seu novo caso é como distribuir exatamente o processo de negligência entre o primeiro cirurgião cujo procedimento deu-lhe os olhos e a testa assustados e o segundo cuja vagabunda carnificina de reparo a deixou com uma máscara crônica de sofrimento apavorado e de terror que agora felizmente só pode causar incidentes no caso de alguém sentar-se no banco lateral oposto. Exatamente atrás do motorista. Por que a única exposição a riscos do posicionamento da Mamãe aqui é que qualquer indivíduo em tal assento imediatamente em frente a este estará em posição de olhar frontalmente para nós durante toda a viagem. Em certas ocasiões tal espécime acaba, se predisposto por condicionamento ambiental ou temperamento instintivo, por parecer presumir que o estímulo que causa a expressão nela sou eu. Que com as minhas dimensões e a minha marca distintiva que eu raptei esta aterrorizada mulher de meia-idade ou agi de forma de algum modo ameaçadora para com ela dizendo, Algum problema, senhora ou, Por que é que você não deixa ela em paz enquanto ela se afunda mais em seu cachecol de tricô ela mesma constrangida pela reação dessas pessoas mas a resposta que eu desenvolvi é sorrir calmamente e erguer minhas luvas intrigado e espantado como se dizendo, Ora quem sabe ao certo por que alguém tem a cara que tem meu bom amigo não tiremos conclusões com base em dados incompletos! Sua queixa original era que um operário na linha de montagem tinha de fato colado a válvula de uma lata virada para o lado errado, eu apresentei um caso claríssimo de negligência no exercício dos devidos cuidados. Sendo a quinta condição do acordo a de jamais sob quaisquer circunstâncias mencionar o nome comercial do spray doméstico comum em qualquer relação ao processo de negligência que estou disposto a honrar em nome dela, a lei é a lei. No que se refere ao acasalamento eu já estive em encontros mas a química foi insuficiente, a Mamãe é de um cinismo negro nas questões do coração referindo-se a todo o espectro dos rituais de acasalamento com um desastre à espera de acontecer. Recentemente, quando o ônibus atravessava o Victory Boulevard enquanto eu olhava para baixo para verificar a situação eu vi acidentalmente projetando-se de um dos buracos de ventilação no canto da caixa a ponta exígua de uma perna negra articulada, ela se movia levemente de um lado para outro e tinha a mesma coloração luminosa do resto dos espécimes, movendo-se tentativamente de modo exploratório. Invisível contra o negro mais inorgânico do exterior da valise. Invisível para a Mamãe cuja expressão de reação devo dizer levianamente não mudaria nem nos menores detalhes, depois que você se acostuma ela é como um rosto de pôquer. Mesmo se eu abrisse toda a caixa bem ali no meu colo e a virasse no corredor central permitindo veloz propagação e penetração dos arredores delimitados. A pior situação possível só ocorria quando se confrontava alguma dupla de vagabundos ou organismos hostis no assento da frente cuja reação à Mamãe podia ser um agressivo olhar de desafio ou um agressivo, Que p…a você está olhando. É para um tal caso que eu sou o acessório semático ou acompanhante dela, com o meu tamanho imponente e os meus óculos pode-se ver sob o ricto congelado que ela acredita que eu posso protegê-la o que é bom.
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DAVID FOSTER WALLACE – SUA ESCLARECEDORA E FAMOSA
PALESTRA DE FORMATURA NO KENION COLLEGE, EM 2005
Dois peixinhos estão nadando juntos e cruzam com um peixe mais velho, nadando em sentido contrário. Ele os cumprimenta e diz:
– Bom dia, meninos. Como está a água?
Os dois peixinhos nadam mais um pouco, até que um deles olha para o outro e pergunta:
– Água? Que diabo é isso?

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Não se preocupem, não pretendo me apresentar a vocês como o peixe mais velho e sábio que explica o que é água ao peixe mais novo. Não sou um peixe velho e sábio. O ponto central da história dos peixes é que a realidade mais óbvia, ubíqua e vital costuma ser a mais difícil de ser reconhecida. Enunciada dessa -forma, a frase soa como uma platitude – mas é fato que, nas trincheiras do dia-a-dia da existência adulta, lugares comuns banais podem adquirir uma importância de vida ou morte.

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Boa parte das certezas que carrego comigo acabam se revelando totalmente equivocadas e ilusórias. Vou dar como exemplo uma de minhas convicções automáticas: tudo à minha volta respalda a crença profunda de que eu sou o centro absoluto do universo, de que sou a pessoa mais real, mais vital e essencial a viver hoje. Raramente mencionamos esse egocentrismo natural e básico, pois parece socialmente repulsivo, mas no fundo ele é familiar a todos nós. Ele faz parte de nossa configuração padrão, vem impresso em nossos circuitos ao nascermos.

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Querem ver? Todas as experiências pelas quais vocês passaram tiveram, sempre, um ponto central absoluto: vocês mesmos. O mundo que se apresenta para ser experimentado está diante de vocês, ou atrás, à esquerda ou à direita, na sua tevê, no seu monitor, ou onde for. Os pensamentos e sentimentos dos outros precisam achar um caminho para serem captados, enquanto o que vocês sentem e pensam é imediato, urgente, real. Não pensem que estou me preparando para fazer um sermão sobre compaixão, desprendimento ou outras “virtudes”. Essa não é uma questão de virtude – trata-se de optar por tentar alterar minha configuração padrão original, impressa nos meus circuitos. Significa optar por me libertar desse egocentrismo profundo e literal que me faz ver e interpretar absolutamente tudo pelas lentes do meu ser.

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Num ambiente de excelência acadêmica, cabe a pergunta: quanto do esforço em adequar a nossa configuração padrão exige de sabedoria ou de intelecto? A pergunta é capciosa. O risco maior de uma formação acadêmica – pelo menos no meu caso – é que ela reforça a tendência a intelectualizar demais as questões, a se perder em argumentos abstratos, em vez de simplesmente prestar atenção ao que está ocorrendo bem na minha frente.

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Estou certo de que vocês já perceberam o quanto é difícil permanecer alerta e atento, em vez de hipnotizado pelo constante monólogo que travamos em nossas cabeças. Só vinte anos depois da minha formatura vim a entender que o surrado clichê de “ensinar os alunos como pensar” é, na verdade, uma simplificação de uma idéia bem mais profunda e séria. “Aprender a pensar” significa aprender como exercer algum controle sobre como e o que cada um pensa. Significa ter plena consciência do que escolher como alvo de atenção e pensamento. Se vocês não conseguirem fazer esse tipo de escolha na vida adulta, estarão totalmente à deriva.

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Lembrem o velho clichê: “A mente é um excelente servo, mas um senhorio terrível.” Como tantos clichês, também esse soa inconvincente e sem graça. Mas ele expressa uma grande e terrível verdade. Não é coincidência que adultos que se suicidam com armas de fogo quase sempre o façam com um tiro na cabeça. Só que, no fundo, a maioria desses suicidas já estava morta muito antes de apertar o gatilho. Acredito que a essência de uma educação na área de humanas, eliminadas todas as bobagens e patacoadas que vêm junto, deveria contemplar o seguinte ensinamento: como percorrer uma confortável, próspera e respeitável vida adulta sem já estar morto, inconsciente, escravizado pela nossa configuração padrão – a de sermos singularmente, completamente, imperialmente sós.

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Isso também parece outra hipérbole, mais uma abstração oca. Sejamos concretos então. O fato cru é que vocês, graduandos, ainda não têm a mais vaga idéia do significado real do que seja viver um dia após o outro. Existem grandes nacos da vida adulta sobre os quais ninguém fala em discursos de formatura. Um desses nacos envolve tédio, rotina e frustração mesquinha.

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Vou dar um exemplo prosaico imaginando um dia qualquer do futuro. Você acordou de manhã, foi para seu prestigiado emprego, suou a camisa por nove ou dez horas e, ao final do dia, está cansado, estressado, e tudo que deseja é chegar em casa, comer um bom prato de comida, talvez relaxar por umas horas, e depois ir para cama, porque terá de acordar cedo e fazer tudo de novo. Mas aí lembra que não tem comida na geladeira. Você não teve tempo de fazer compras naquela semana, e agora precisa entrar no carro e ir ao supermercado. Nesse final de dia, o trânsito está uma lástima.

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Quando você finalmente chega lá, o supermercado está lotado, horrivelmente iluminado com lâmpadas fluorescentes e impregnado de uma música ambiente de matar. É o último lugar do mundo onde você gostaria de estar, mas não dá para entrar e sair rapidinho: é preciso percorrer todos aqueles corredores superiluminados para encontrar o que procura, e manobrar seu carrinho de compras de rodinhas emperradas entre todas aquelas outras pessoas cansadas e apressadas com seus próprios carrinhos de compras. E, claro, há também aqueles idosos que não saem da frente, e as pessoas desnorteadas, e os adolescentes hiperativos que bloqueiam o corredor, e você tem que ranger os dentes, tentar ser educado, e pedir licença para que o deixem passar. Por fim, com todos os suprimentos no carrinho, percebe que, como não há caixas suficientes funcionando, a fila é imensa, o que é absurdo e irritante, mas você não pode descarregar toda a fúria na pobre da caixa que está à beira de um ataque de nervos.

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De qualquer modo, você acaba chegando à caixa, paga por sua comida e espera até que o cheque ou o cartão seja autenticado pela máquina, e depois ouve um “boa noite, volte sempre” numa voz que tem o som absoluto da morte. Na volta para casa, o trânsito está lento, pesado etc. e tal.

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É num momento corriqueiro e desprezível como esse que emerge a questão fundamental da escolha. O engarrafamento, os corredores lotados e as longas filas no supermercado me dão tempo de pensar. Se eu não tomar uma decisão consciente sobre como pensar a situação, ficarei irritado cada vez que for comprar comida, porque minha configuração padrão me leva a pensar que situações assim dizem respeito a mim, a minha fome, minha fadiga, meu desejo de chegar logo em casa. Parecerá sempre que as outras pessoas não passam de estorvos. E quem são elas, aliás? Quão repulsiva é a maioria, quão bovinas, e inexpressivas e desumanas parecem ser as da fila da caixa, quão enervantes e rudes as que falam alto nos celulares.

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Também posso passar o tempo no congestionamento zangado e indignado com todas essas vans, e utilitários e caminhões enormes e estúpidos, bloqueando as pistas, queimando seus imensos tanques de gasolina, egoístas e perdulários. Posso me aborrecer com os adesivos patrióticos ou religiosos, que sempre parecem estar nos automóveis mais potentes, dirigidos pelos motoristas mais feios, desatenciosos e agressivos, que costumam falar no celular enquanto fecham os outros, só para avançar uns 20 metros idiotas no engarrafamento. Ou posso me deter sobre como os filhos dos nossos filhos nos desprezarão por desperdiçarmos todo o combustível do futuro, e provavelmente estragarmos o clima, e quão mal-acostumados e estúpidos e repugnantes todos nós somos, e como tudo isso é simplesmente pavoroso etc. e tal.

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Se opto conscientemente por seguir essa linha de pensamento, ótimo, muitos de nós somos assim – só que pensar dessa maneira tende a ser tão automático que sequer precisa ser uma opção. Ela deriva da minha configuração padrão.

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Mas existem outras formas de pensar. Posso, por exemplo, me forçar a aceitar a possibilidade de que os outros na fila do supermercado estão tão entediados e frustrados quanto eu, e, no cômputo geral, algumas dessas pessoas provavelmente têm vidas bem mais difíceis, tediosas ou dolorosas do que eu.

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Fazer isso é difícil, requer força de vontade e empenho mental. Se vocês forem como eu, alguns dias não conseguirão fazê-lo, ou simplesmente não estarão a fim. Mas, na maioria dos dias, se estiverem atentos o bastante para escolher, poderão preferir olhar melhor para essa mulher gorducha, inexpressiva e estressada que acabou de berrar com a filhinha na fila da caixa. Talvez ela não seja habitualmente assim. Talvez ela tenha passado as três últimas noites em claro, segurando a mão do marido que está morrendo. Ou talvez essa mulher seja a funcionária mal remunerada do Departamento de Trânsito que, ontem mesmo, por meio de um pequeno gesto de bondade burocrática, ajudou algum conhecido seu a resolver um problema insolúvel de documentação.

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Claro que nada disso é provável, mas tampouco é impossível. Tudo depende do que vocês queiram levar em conta. Se estiverem automaticamente convictos de conhecerem toda a realidade, vocês, assim como eu, não levarão em conta possibilidades que não sejam inúteis e irritantes. Mas, se vocês aprenderam como pensar, saberão que têm outras opções. Está ao alcance de vocês vivenciarem uma situação “inferno do consumidor” não apenas como significativa, mas como iluminada pela mesma força que acendeu as estrelas.

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Relevem o tom aparentemente místico. A única coisa verdadeira, com V maiúsculo, é que vocês precisam decidir conscientemente o que, na vida, tem significado e o que não tem.

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Na trincheira do dia-a-dia, não há lugar para o ateísmo. Não existe algo como “não venerar”. Todo mundo venera. A única opção que temos é decidir o que venerar. E o motivo para escolhermos algum tipo de Deus ou ente espiritual para venerar – seja Jesus Cristo, Alá ou Jeová, ou algum conjunto inviolável de princípios éticos – é que todo outro objeto de veneração te engolirá vivo. Quem venerar o dinheiro e extrair dos bens materiais o sentido de sua vida nunca achará que tem o suficiente. Aquele que venerar seu próprio corpo e beleza, e o fato de ser sexy, sempre se sentirá feio – e quando o tempo e a idade começarem a se manifestar, morrerá um milhão de mortes antes de ser efetivamente enterrado.

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No fundo, sabemos de tudo isso, que está no coração de mitos, provérbios, clichês, epigramas e parábolas. Ao venerar o poder, você se sentirá fraco e amedrontado, e precisará de ainda mais poder sobre os outros para afastar o medo. Venerando o intelecto, sendo visto como inteligente, acabará se sentindo burro, um farsante na iminência de ser desmascarado. E assim por diante.

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O insidioso dessas formas de veneração não está em serem pecaminosas – e sim em serem inconscientes. São o tipo de veneração em direção à qual você vai se acomodando quase que por gravidade, dia após dia. Você se torna mais seletivo em relação ao que quer ver, ao que valorizar, sem ter plena consciência de que está fazendo uma escolha.

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O mundo jamais o desencorajará de operar na configuração padrão, porque o mundo dos homens, do dinheiro e do poder segue sua marcha alimentado pelo medo, pelo desprezo e pela veneração que cada um faz de si mesmo. A nossa cultura consegue canalizar essas forças de modo a produzir riqueza, conforto e liberdade pessoal. Ela nos dá a liberdade de sermos senhores de minúsculos reinados individuais, do tamanho de nossas caveiras, onde reinamos sozinhos.

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Esse tipo de liberdade tem méritos. Mas existem outros tipos de liberdade. Sobre a liberdade mais preciosa, vocês pouco ouvirão no grande mundo adulto movido a sucesso e exibicionismo. A liberdade verdadeira envolve atenção, consciência, disciplina, esforço e capacidade de efetivamente se importar com os outros – no cotidiano, de forma trivial, talvez medíocre, e certamente pouco excitante. Essa é a liberdade real. A alternativa é a torturante sensação de ter tido e perdido alguma coisa infinita.

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Pensem de tudo isso o que quiserem. Mas não descartem o que ouviram como um sermão cheio de certezas. Nada disso envolve moralidade, religião ou dogma. Nem questões grandiosas sobre a vida depois da morte. A verdade com V maiúsculo diz respeito à vida antes da morte. Diz respeito a chegar aos 30 anos, ou talvez aos 50, sem querer dar um tiro na própria cabeça. Diz respeito à consciência – consciência de que o real e o essencial estão escondidos na obviedade ao nosso redor – daquilo que devemos lembrar, repetindo sempre: “Isto é água, isto é água.”

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É extremamente difícil lembrar disso, e permanecer consciente e vivo,
um dia depois do outro.


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So long, David, se eu merecer o paraíso, te encontro lá.