terça-feira, 20 de março de 2018

Em busca de uma Tradução para Marcel Proust

Ler Marcel Proust é um prazer.

Descubro que temos um milhão de coisas em comum.

Percebo que ele vê o Mundo e sente as coisas quase como se fosse eu mesmo.

Longe de ser um escritor árido ou erudito, fala comigo com a mesma facilidade que um quadro ou uma música com a qual me identifico de maneira intensa e inexplicável, como uma epifania atrás da outra.

Mas, ai de mim, não sou capaz de ler no original francês. Leio um pouco, entendo quase tudo, mas não falo e, principalmente, não leio com fluência. Assim, a leitura é penosa e incompleta.

Só me resta ler traduções, significando que preciso recorrer às duas disponíveis no Português Brasileiro.



A primeira tradução é de autoria de Mario Quintana (1906 - 1994, gaúcho de Alegrete). Poeta, tradutor e Jornalista brasileiro, único tradutor do À Sombra das Raparigas em Flor e dos outros três primeiros livros de Em Busca do Tempo Perdido. Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade também atuaram na tradução dos demais livros de Marcel Proust para a Editora Globo no início dos anos 50.

A outra tradução é recente, feita por Fernando Py (1935, carioca). Poeta, crítico literário e tradutor de toda a obra de Proust.

Quem sou em para comparar, além de só ser leitor, ainda não li toda a tradução de Py. Mas uma coisa ou outra me chama atenção.

Vou ser bem específico numa frase, melhor, uma expressão  do "À Sombra...".

Enquanto está assim no original Francês: 

À l’ombre des jeunes filles en fleurs

 Vaugoubert n’a pas eu à faire face seulement aux intrigues de couloirs mais aux injures de folliculaires à gages qui plus tard, lâches comme l’est tout journaliste stipendié, ont été des premiers à demander l’aman, mais qui en attendant n’ont pas reculé à faire état, contre notre représentant, des ineptes accusations de gens sans aveu.


La Bibliothèque électronique du Québec
 Collection À tous les vents Volume 402 : version 1.0

Mario Quintana traduz como "jornalista estipendiado".

Fernando Py traduz como "jornalista venal".

Não dá para discordar de Quintana, apesar de Venal e Estipendiado terem significado semelhantes, estão longe de ser idênticos. Enquanto estipêndio é remuneração não assalariada, venal é o valor monetário atribuído a algo.

Logo, Marcel Proust usou stipendié, que tem a mesma origem latina de estipêndio, para se referir a um profissional de jornalismo que recebe remuneração para atender a outros interesses diferentes da divulgação dos fatos verdadeiros que tem por dever e  ética divulgar.

Estou lendo a tradução de Fernando Py. 

É mais fácil de ler, com certeza. Mas a escolha de palavras não acrescenta muito mais ao leitor. Foram escolhidas similares mais lugar-comum e menos castiças. Gosto do uso de palavras mais elaboradas e à beira do pedante como é Proust, é preciso reconhecer.

Outro detalhe é que a obra foi originalmente publicada entre 1911 e 1922 e a gente sempre espera que tenha um ranço de coisa antiga, de um tempo de mais classe do que o nosso, com uso de todas as possibilidades de uma língua e não só o punhadinho de palavras que usamos hoje em dia.

Por exemplo, Py traduz "psiquiatra" quando o termo é "alienista", que em francês é quase igual. Assim eram chamados os médicos de doenças mentais naquela época. 

Sinto que estou perdendo alguma coisa que nem Mario Quintana e nem Fernando Py  puderam me proporcionar, mas é o que tenho. 

Mas que estipendiado tem muito mais sonoridade do que venal, isso é inquestionável.

Um aspecto que acho muito perturbador nesta edição capa dura em box da Editora Nova Fronteira e que atrapalha demais a leitura, são os constantes erros de digitação ou impressão. 

Frases sem sentido trocando o "que" por "de". Outra passagem com "seu avó", ficando-se sem saber se ele queria dizer "seu avô" ou "sua avó". 

Em dois trechos simplesmente está faltando uma palavra inteira. Típico erro que uma revisão de texto do word não assinala.

E estou apenas no começo.

Mercadoria com defeito deveria ser substituída por outra em perfeito estado. Devolvo à editora e recebo outro sem erros, pois sou um consumidor lesado. 

Esta é a pobre indústria gráfica editorial brasileira.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Carta a J. D. Salinger



Caro Jerry Salinger

Como sei que você continua antenado com o que acontece em seu nome pelo Mundo, vou mandar pro astral da internet um recado prá voce ler.

Fique de boa. Não vou encher muito seu saco, cujo saco todo mundo sabe já encheu faz tempo.
Andam dizendo por aqui que você foi importante demais por ter sido o primeiro a por no papel impresso a voz da juventude  norteamericana. E isso é só o que falam de bom.

Dizem também que voce era um pedófilo sofisticado e que inspirou meia dúzia de mass murder. Que A Guerra te deixou tão travado na adolescência que nunca amadureceu e se tornou homem. Que nunca mais escreveu nada de bom e que, na melhor  das hipóteses, tinha uns parafusos de menos na cabeça.

Não vou dizer que te entendo. Mas, se no seu tempo já era difícil ser um INDIVÍDUO, voce não imagina o quanto hoje isso é impossível, penoso e tudo mais.

Aqui tá foda!

Andei pensando em voce ao dar uma  encadernada no The Catcher in the Rye.

Tenho o livrinho faz tempo e tava bem baleado. Aí juntei mais umas informações, dei uma consertada e encadernei.

Me deu a idéia de fazer a capa com um couro preto para representar o abismo e outro couro claro amarelinho para o campo de centeio, entende?

Para a ilustração, fiz aqueles bonequinhos de papel de mãos dadas, conhece?  Cortei em papel grosso e prensei no couro claro ainda úmido de cola. O negócio é para ficar parecendo um bando de crianças à beira do abismo. Ficou mais ou menos.

Fico pensando que é o que acontece hoje aqui: A gente indo pro buraco todo mundo junto, ainda cantando alguma musiquinha meio besta, de mão dada e tudo.

Tá bom! Gosto mais da metáfora do abismo como lugar onde sacrificamos nossa inocência e Holden nos socorre se tivermos sorte.

Agora o título.

“O Apanhador no Campo de Centeio”, prá mim, é uma merda de título apesar de voce ter aprovado, dizem. Mas é melhor do que no português de Portugal: “Agulha no Palheiro”. E muito melhor do que a proposta dos tradutores brasileiros “A Sentinela do Abismo”, bem no estilo pomposo-meloso que todo mundo curte por aqui.

Então mandei ver só “THE CATCHER”.

O livro é meu, o trabalho é meu. Mas te dou essa satisfação,  se por via das dúvidas voce ainda estiver de olho nas coisas por aqui.

Fique na tua aí.

Seu admirador


Pedro Malanski

Fotos do livro encadernado 




Folha de Guarda com marcador no mesmo papel

Capa da edição brasileira

Fotos de Informações que adicionei ao livro original

Capa de Edição em capa dura 

Última foto conhecida de Salinger, 2008

Foto de Salinger na contracapa das primeiras edições americanas, mandou retirar.



É ISSO.

terça-feira, 14 de abril de 2015

O Ler e o Não Ler

Ler é divertido.
Ou deveria ser.
Mas é caro e o produto é de péssima qualidade. Péssima relação custo-benefício.
Ler tem sido superestimado.
"É essencial para a educação.
"É uma forma de ampliar o vocabulário.
"As pessoas que gostam de ler são mais inteligentes, cultas e bem informadas.
"Você não leu o livro do filme?
"Ler é muito importante para o exito social.

"Ler é um hábito culto e elegante" é uma mentira que tem sido aplicada com muito sucesso pelo mercado editorial. com o objetivo de vender livros enormes a alto preço para um grande número de leitores fidelizados por intermináveis trilogias e pentalogias cheias dos mesmos clichês e truques de redação.


A Mística da Coisa Impressa
já me fez perder tempo com muita porcaria.




sábado, 3 de março de 2012

O Suicídio na Ficção

Lembrar das obras de literatura onde o suicídio é tema, recurso ou desfecho, daria ao meu texto a obrigação de mencionar os mesmos de sempre. O indefectível “Werther”, de Goethe, a conhecida “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert, o nacional “São Bernardo”, de Graciliano Ramos e o mais popular de todos, mas quase nunca associado ao tema suicídio, “Romeu e Julieta” de Shakespeare, que ao fim e ao cabo termina com o casal de amantes tirando a própria vida. São obras de ficção desde sempre e unanimemente classificadas como obras de literatura.

Mas existem outras obras cuja importância seria muito menor se o tema fosse retirado de seu enredo. Por sua popularidade e por suas qualidades relativas, não são classificadas como “Literatura”, mas exercem sobre nossa Sociedade enorme influência.

Por esse motivo, o título não é “O Suicídio na Literatura”, mas “na Ficção”. 



O Pequeno Príncipe

Romance de maior sucesso de Antoine Jean Baptiste Marie Roger Foscolombe de Saint-Exupéry filho do conde e condessa de Foscolombe (29 de junho de 1900, Lyon - 31 de julho de 1944, Mar Mediterrâneo) foi um escritor, ilustrador e piloto da Segunda Guerra Mundial.


Faleceu durante uma missão de reconhecimento sobre Grenoble e Annecy. Em 3 de novembro, em homenagem póstuma, recebeu as maiores honras do exército. Em 2004, os destroços do avião que pilotava foram achados a poucos quilômetros da costa de Marselha. Seu corpo jamais foi encontrado.

Suas obras foram caracterizadas por alguns elementos em comum, como a aviação, a guerra, a solidão e a fidelidade. Também escreveu artigos para várias revistas e jornais da França e outros países, sobre muitos assuntos, como a guerra civil espanhola e a ocupação alemã da França. Pessoalmente elejo sua obra póstuma “Cidadela” como a mais densa e impactante.

O Pequeno Príncipe (O Principezinho, em Portugal) (1943), é o romance de maior sucesso de Saint-Exupéry. Foi escrito durante o exílio nos Estados Unidos, quando fez visitas ao Recife. Conhecendo suas outras obras é fácil imaginar que um livro assim pudesse ter sido escrito por um homem como ele. Seus livros são cheios de melancolia, sentimentalismo e sensibilidade, revelando um homem em constante atrito emocional com o mundo à sua volta.

O Pequeno Príncipe é uma obra simples e direta, repleta simbolismos, constituindo uma metáfora do ser humano quando confrontado com a sociedade e suas regras e convenções. É a história de alguém que sai de seu mundo, confronta-o com outros mundos e, finalmente, retorna a seu mundo original procurando a ajuda do veneno de uma serpente.

Assim, o Príncipe aborta qualquer possibilidade de se tornar Rei. Como se fosse a criança e adolescente que sempre conheceu apenas o mundo seguro garantido por seus pais, morou na casa que não era sua, alimentado e vestido sem que para tanto tenha trabalhado. Confrontado com a necessidade de habitar por sua própria conta o vasto mundo à sua volta, elege matar a si mesmo. Assustado com a aridez do deserto que o recebeu, refugia-se no suicídio como rota de fuga. Quando chega a hora de assumir as obrigações e responsabilidades do Rei, não é capaz de antever a plenitude, a liberdade e o poder dessa nova condição, interrompendo a própria vida.

É a mais escrachada obra de ficção sobre o suicídio,  livremente indicada para crianças e adolescentes.



Canopus em Argus

Nascida Doris May Tayler,  Doris Lessing, nasceu em Kermanshah, no Irã, em 22 de outubro de 1919. Logo cedo, aos cinco anos, partiu com seus pais, o capitão Alfred Tayler e sua mulher Emily Maude Tayler, nascidos na Inglaterra, para a Rodésia do Sul, atual Zimbábue.

Ao completar sete anos, foi enviada a uma escola interna, sendo posteriormente remanejada para uma instituição escolar católica direcionada somente para meninas, localizada em Salisbury, hoje chamada de Harare, capital desta nação africana colonizada pelos britânicos.

Depois de contrair matrimônio duas vezes, com sua vida afetiva frustrada, ela se transfere com o filho Peter, em 1949, para a Inglaterra, levando em sua bagagem uma já vasta militância política. Neste país ela dá à luz seu primeiro romance, The Grass is Singing, no qual Lessing narra a profunda interação entre a esposa de um fazendeiro branco e sua empregada negra. O livro logo se torna um êxito no continente europeu e nos EUA.

Doris obteve, em 2007, seu reconhecimento máximo ao ser escolhida para receber o Prêmio Nobel de Literatura, entregue pela Academia Sueca. Esta instituição justifica a premiação como uma recompensa por seu poder de traduzir a questão feminina com um tom cético, vigoroso e idealista.

O seu trabalho mais volumoso quase nunca é citado em suas biografias, pois escapa à definição de literatura. A série “Canopus em Argus”, composta por cinco livros. O primeiro deles, “Shikasta”, é o melhor e o mais interessante, apesar da premissa que muitos consideram pseudo-ficção científica. A Terra é um campo de batalha mental-físico-ideológico entre os seres de Canopus, de Sírius e o maléfico império Shammat, e ela faz com que toda a tecnologia deles soe para nós como esoterismo, a começar pela Zona Seis, o método de transporte favorito desses alienígenas, e que não tem nada a ver com naves espaciais, mas com o método que nos acostumamos a chamar de reencarnação.

O viajante de Canopus, em sua missão de observar e, às vezes, interferir no curso dos acontecimentos terrenos, procura um rio para se afogar, uma arma para atirar em si mesmo ou qualquer método letal que o liberte da forma humana para viajar de volta à sua gloriosa civilização.

Só mesmo eu para encontrar este ponto em comum entre Sait-Exupéry e Doris Lessing.


A leitura sempre causa algum efeito no leitor. Em leitores normais, com alguma solidez mental e emocional, os efeitos são superficiais e passageiros, não se prolongando além de alguns dias. A informação é obtida, seus conteúdos são processados e absorvidos conforme as preferências próprias do leitor. Em seguida passa para outro livro,com outro assunto, para fruir novas aventuras e obter novos conhecimentos.

Agora, quando os temas são fortes, podem afetar o leitor além do razoável, quando endossados pela crítica, promovidos pelo mercado e, principalmente, romantizados e idealizados.

É preciso que as pessoas se conscientizem que o personagem Príncipe é apenas um menino solitário, ignorante e frágil, criado num contexto de Segunda Guerra Mundial por um homem melancólico, traído pela esposa e desiludido do mundo. Assim como Doris Lessing é uma mulher que se cansou de cortejar a literatura, que nunca lhe deu um padrão de vida razoável, para ingressar no lucrativo mercado de obras populares, vender em grandes quantidades e viajar pelo mundo como uma celebridade pop. Muito mais tarde, recebeu um merecido Nobel e um bom dinheiro como prêmio, a meu ver muito tarde.


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Livros que se foram

Dias de ira, quando perdi todos os livros que possuí.

Desde então, quando me falam de algum livro ou quando vejo um livro novinho na prateleira da livraria, um frase amargurada me ocorre: " Eu tinha esse livro."
 
Foi assim.

Não era nenhuma biblioteca, ou seja, não era um acervo representativo de um gênero literário ou de uma especialidade. Era só uma livraiada mesmo. Uns dois mil reunidos no passar dos anos, sem nenhum critério particular. Mas tinha muita coisa boa. Se quisesse cansar a paciência dos outros falando de alguns deles, ia ficar uma coisa nostálgica comum a qualquer pessoa que fica remoendo perdas. E talvez pouca gente ia entender, dependendo do apego de cada um a livros.

No começo, falava alto a frase "Porra! eu tinha esse livro...", bem assim com palavrão no começo e reticências no fim. Aos poucos fui me dando conta da tolice. Para uns parecia um lamento, para outros soava como uma mentira mesmo, ou ainda uma bravata onde eu me vangloriava de ter lido e ainda por cima ter possuído aquela obra. Isso quando não estragava tudo revelando: "Eu tinha todos os livros desse autor!" E tinha mesmo.

Mas continuo dizendo tanto uma como outra frase, agora mentalmente. Só que assim dói mais.

Afinal, perdi os livros por ter ido embora de um casamento ruinoso. Ela, com raiva por eu ter superado finalmente, vendeu tudo por trezentos reais para o XXXXXX, um sebo aqui de Curitiba. Podia ter sido para o Iraci, para o Espanhol ou mesmo feito uma enorme fogueira, o efeito seria o mesmo. Foi a gota d'água, mesmo depois de anos de judiação, traições e loucuras.

A reação dos amigos foi veemente. Queriam alegar apropriação indébita dela e receptação do sebo. E estou falando de uma advogado e de um promotor de justiça! Eu, catatônico, deixei ficar, mesmo depois de ir na loja e ver que um dos livros estava na vitrine central e vendido a sessenta reais, "A Imortalidade da Alma", não me lembro do autor, edição de 1912.

A gente tende a inventar mecanismos de defesa para lidar com traumas. O meu foi concluir que era até um alívio ficar livre de toda aquele lastro de livros e centenas de outras quinquilharias, deixando para trás toda aquela bagagem inútil para recomeçar livre e leve.

È... está certo e racionalizado, mas tinha tanto livro bom...

*
Esse post teve efeitos indesejados.
O dono do Sebo não gostou que eu o tivesse mencionado e pediu que eu retirasse a menção à sua Loja, pois não queria nenhuma menção negativa aparecendo na pesquisa do Google. Não era uma menção negativa, apenas revelei o quanto pagou pelos meus livros.
Um sebo é um sebo. Um estabelecimento que vende livros usados não é um espaço cultural. Não importa que se considere um pavão, pois todo mundo sabe que é um abutre que explora a ignorância e a necessidade quando compra e explora a ignorância e a paixão quando vende. 
Como o "LEOPARDO" não é um blog com compromissos, é só espaço para falar de livros, resolvi omitir a verdade, rendendo-me à censura, pois mesmo um abutre pode sempre cagar na nossa cabeça.
Fui ao sebo tentar reaver os livros e me ofereceram apenas um DESCONTO, ficando assim mesmo além de minhas possibilidades na época.

ADENDO
Lista de alguns que tem feito falta ultimamente.
- todos da coleção A Vida Cotidiana, publicados em Portugal e comprados com muito custo na Livraria do Chain.
- O "Livro Verde da Minha Campanha" de Plínio Salgado, onde ele cita minha bisavó falando de meu tio-avô, com uma dedicatória autografada pelo autor. Nada raro, apenas de família e caro.
- "Compêndio de Filosofia".
- Uma centena da Coleção Argonauta, ficção científica, publicado em Portugal.
- Coleção completa de "Amazing Stories" na versão em protuguês publicada pela Editora Globo, de PortoAlegre.
-Muitos da coleção "A Vida Cotidiana..." coisa boa.
- "Inri Cristo, Furacão sobre o Vaticano S/A" com dedicatória do próprio e do autor, uma curiosidade.
- Todos de Herman Hesse.
- "Religião na Dialética Socialista", uma pérola editada em Porto Alegre, mais não me lembro.
- "Resumo da Origem de Todos os Cultos" de C. F. Dupuis, cópia xerox que o Gino me deu.
- "Mein Kampf", de A. Hitler, que o Chain me deu.
- "Ulisses" de James Joyce, primeira edição brasileira,que sofri para encadernar todo em couro de jacaré.
- "Poésie et littérature française", que língua para poesia!
- Todos de EliphasLevi.
- "Documentário Arquitetônico"  de José Wasth Rodrigues, fascículos com estampas desse autor, publicados em 1944/1945. Tinha todos, encadernei em dois volumes. Só me sobraram dois fascículos.
 - Volumes das "Obras Completas de Sigmund Freud", o "O homem e seus símbolos" de K.
Young e tantos outros do tempo de Faculdade.
José Wasth Rodrigues - São Paulo, Casas Antigas - Documentário Arquitetônico, Fascículo I, Estampa 1

sábado, 21 de janeiro de 2012

1808

Levei muito tempo entre ouvir falar do lançamento do livro “1808” de Laurentino Gomes, em 2007, e finalmente comprar e ler por esses dias de Janeiro de 2012. E este foi meu erro.

Quando a gente fica adiando a leitura, acaba criando expectativas quanto ao livro. Esperando finalmente encontrar o muito que desejo saber sobre esse momento em nossa história, fico idealizando que o autor me presenteie com a mesma riqueza de texto e detalhes que uma vez encontrei em autores como Jacques Soustelle, Michel Chatelet e Suzanne Chantal, quando me contaram histórias de Portugal, do Antigo Egito, da India nos tempos de Jesus e por aí afora, todos trazendo fatos bem colocados, informações sólidas e abundantes, sempre com texto fluente e dinâmico.


Em “1808”, o subtítulo “Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil”, fica só na promessa e não conta esse “Como”.


Comecei a ler embalado e o começo parecia bom, mas o autor não foi feliz na sua empreitada.


Logo notei que, das 368 páginas, 58 vinham com notas e bibliografia. Até postei no facebook do autor que preferia mais de bom texto e menos de pura mania de quem faz tese de mestrado e mesmo trabalhos escolares. Se o texto é bom, me convencerá, Se não é, não adianta invocar a Biblioteca Nacional inteira.


Em “1808” o autor cometeu o uso excessivo de aspas ao transcrever textos de cronistas da época, ao invés de apenas usar estas informações para, na sua própria redação, compor um painel dos usos, costumes e crenças daquele ano no Brasil. Tornaria a leitura mais dinâmica e adequada aos novos leitores. Como ficou, compôs uma colcha de retalhos com muitos fragmentos repetidos, outros fora de contexto e todos muito evidentemente coligidos segundo a idiossincrasia do autor, ficando a impressão de que seu prisma é embaçado por preconceitos e seu ângulo limitado por ideologias, citando apenas o que é de seu particular interesse. A sensação final é a de infidelidade aos fatos históricos.


Talvez tenha tentado popularizar o trabalho ao utilizar elementos da Cultura Pop, mas me pareceu ingênuo e pueril ao comparar uma figura histórica com o Super-Homem e citando algumas vezes – pasmem – o filme de Carla Camurati, Carlota Joaquina, Princesa do Brazil .
Noutras vezes, critica a corrupção e o nepotismo como qualquer jornalista sem pauta faz hoje em dia. Nestes momentos deixa clara sua ideologia e rusticidade, desperdiçando espaço precioso em folhas de papel. Qualquer um sabe que todos os governos da Terra são feitos da mesma péssima matéria prima e quem já conheceu outros reis sabe que são excêntricos, loucos, brilhantes, como Luis XIV, Jorge III, Pedro, O Grande e outros de todos os tipos, muito poucos normais.


A impressão geral após a leitura é de que o autor escreveu cada linha como se fosse realmente um roteiro estendido do filme de Carla Camurati, que é uma obra artística onde todas as licenças são permitidas.


Reforçou preconceitos e consolidou estereótipos, como faria o Casseta&Planeta, com informações que já são do conhecimento de qualquer médio leitor brasileiro.

Procurou o ângulo mais politicamente correto possível do ponto de vista da “intelectualidade” corrente nos dias de hoje.


Quanto a mitigar a sede do leitor por informações, descrevendo os tempos de D. João VI no Brasil, compondo para nós um painel verossímel e fiel, esse livro “1808” é um fracasso.

Será que vou ler o próximo?
 

sexta-feira, 4 de março de 2011

Literatura Naif


Os ingênuos na literatura ou a literatura dos ingênuos.

Estou me propondo um trabalho muito maior do que a minha capacidade, reconheço. Como diria um escritor naif:: é muita areia para o meu caminhãozinho. A idéia é estabelecer um critério para distiguir a literatura profissional da literatura amadora e categorizar os autores ingênuos. Se não der em nada. pelo menos estou criando a categoria "intelectual naif".

Como nas Artes Plásticas, o rótulo de "naif" - eufemismo elegante para "ingênuo" - não é pejorativo. O artista naif não utiliza as regras elementares de pintura em suas obras, como proporção, perspectiva, claro-escuro, incidência de luz e outras formalidades, podendo ser ou não ser formado em artes plásticas. Quanto ao escritor naif, também não faz uso das regras elementares de narrativa, recorrendo a termos, figuras e metáforas simples, frequentemente chavões e estereótipos de uso comum. kitsch?

Logo me dou conta que já foram impressos milhões de livros de milhares de autores exatamente com essas características, principalmente  livros de entretenimento. Os romances em papel barato nas prateleiras das bancas de revista, as histórias de proselitismo do espiritismo ou dos evangélicos, livrinhos de bolso com aventuras de espionagem ou de cowboys, material para o público adolescente,  exemplares que o autor paga para imprimir e vai vendendo às próprias custas. Lugar comum entre todos eles, a superficialidade e o amadorismo.

Alguns são pretenciosos e se oferecem em formato padrão e capas elegantes, distribuídos por editoras poderosas. Seus autores são figuras de alguma ou muita celebridade em outras áreas de atividade, que resolveram explorar o mercado de consumo com o produto livro. Também surgem devido ao interesse do mercado leitor por um assunto em moda, como O Caçador de Pipas e O Livreiro de Kabul. Outros, são acompanhados de marketing pesado e associado a filmes de sucesso, como O Código Da Vince. Todos tem em comum um amontoado de lugar-comum.

Contudo, nenhum é péssimo, horrível ou indigesto, cada um deles encontrando seu público no mercado pois, procurando bem, cada um tem seu mérito.

Na prática, quais os vícios de gramática característicos de um escritor ingênuo? Ocorrem-me alguns, dentre os tantos que tornam um livro difícil de ler, pois o texto fica cansativo e interminável.

I - O uso indiscriminado do "que"

Na frase "E compreenderam, alguns mais cedo que outros, que o Apocalipse estava em curso, e começaram a se preparar para o Armagedon, a batalha final que decidirá a soberania de Haled, que estará aberta à invasão espiritual quando a menbrana cair." do bom livro "A Batalha do Apocalipse", de Eduardo Spohr. Por certo existem muitas outras formas de escrever essa mesma frase sem o uso do "que", todas tornando-a mais direta e clara. Mas o autor optou pela forma indireta e  usou o "que" para auxiliar o próprio pensamento na sua elaboração. O "que" passa ao leitor a impressão de dificuldade do autor em se expressar, como se fosse penoso ou como se tivesse pressa em concluir o trecho e passar logo ao próximo e emocionante patamar da obra. Abrindo o livro ao acaso, são raras as frases onde o "que" não aparece uma ou duas vezes.

Há outro livro, um clássico da literatura (?) intragável, mas é obra traduzida e, portanto, pode ser produto de um tradutor naif ou de um tão ingênuo quanto o original. Chama-se "A Cidade dos Hereges" de  Federico Andahazi, e o trecho, abrindo o livro ao acaso, é "Uma lenda atribuída a Eusébio, que garantia ter se documentado nos arquivos de Edessa, dizia que ao adoecer o Rei Abgar V,  rei de Edessa, e vendo que a sua vida se apagava, desesperado mandou um emissário chamado Ananias para que visse Jesus e o convencesse de que acudisse ao seu reino."
 Aí estão alguns elementos do texto chato:  muitos "ques", argumentos baseados em terceiros baseados em terceiros e tom professoral.

II - Trechos didáticos professorais

A trama segue e a ação é descrita, quando o texto é aparentemente interrompido por uma série de explicações. Neste momento, o autor costuma por na boca do personagem explicações didáticas sobre algum detalhe da história, as quais julga relevantes para instruir o leitor e reforçar as premissas usadas. Nunca parece coisa do personagem. Parece mais que ele foi possuído por algum professor chato que veio nos dar uma aula de história, nos explicar a teoria dos mundos paralelos ou fisiologia dos corpos mentais e astrais sob o ponto de vista teosófico. Muitas vezes, o onipresente narrador muda o próprio tom e sem aviso se mete a nos descrever paisagens de cidades e lugares, como se fosse um enfadado professor de geografia ou um cansado guia turístico.

Acontece durante toda a trilogia "MiIlenium", de Stieg Larsson, nestes momentos o texto para de fluir, parece uma flor artificial no meio do jardim, com a naturalidade de um ator de novela tendo que fazer merchand entre um texto e outro da cena. Até na boca do Professor Langdon, o Código da Vinci perde o ritmo a cada ladainha explicativa.

O leitor se sente ou enrolado ou subestimado nesses momentos. Se a premissa é tão insustentável que precisa uma aula para se manter, abandone-a. Talvez o autor pretenda demonstrar seus conhecimentos nas diversas áreas do saber humano e por essa via cativar o leitor. Talvez, ainda, tenha se deixado influenciar pelo Editor ou por algum leitor crítico, incluindo no texto explicações posteriores à sua conclusão, supostamente destinadas a facilitar a compreensão da obra, porisso soando tão artificial.

É pura arrogância.

III - Contém gordura saturada

Utilizando ingredientes destinados a cativar o paladar do leitor, os livros de puro entretenimento causam a obesidade mental como desagradável dano colateral.

Os sintomas são tão claramente visíveis quanto aqueles causados pela comida fast-food e o excesso de frituras na alimentação, como obesidade, entupimento de veias e descontrole de pressão.

Incorporando temas de grande apelo popular e de leitura fácil e fluente, acabam por afetar a capacidade mental do leitor, que passa a ver reduzido seu vocabulário e limitado o seu raciocínio e agilidade.


Há leitores viciados neste tipo de livro. Acostumando-se a leituras fáceis, passa os olhos pelo texto quase sem prestar atenção e apenas colhendo a descrição da ação, sem conseguir mais interpretar realmente o que lê. Desta forma, os livros de diversão podem ser enormes, compondo trilogias e pentalogias sem fim, uma vez que não são realmente lidos, servindo apenas à voracidade do leitor em sua necessidade de escapismo e ao interesse do mercado editorial. Aos glutões, muita comida.

Tais livros utilizam recursos desleais para cativar o leitor. O mestre Stephen King domina inteiramente este técnica (truque). Inicia a obra com uma situação praticamente insolúvel ou um monstro aparentemente invencível, para resolver no final com um artifício simples ou o heroísmo solitário de uma criança. Ver o final anti-climax de "A Torre Negra" e o monstro que virou otário de "A Coisa".

Outros, transmitem informações superficiais e estereotipadas de uma época, criando personagens de contemporaneidade suspeita, como em Bernard Cornwell. Além disso, aproveitam-se de ganchos místico-religiosos para aumentar o interesse na obra, como nas trilogias da "Busca do Graal" e "Crônicas do Rei Arthur", embasando suas premissas históricas em dados evidentemente especulativos e até fictícios.

IV - Excesso de Adjetivação

Há uma distância entre um texto de substância e um texto vazio: sua medida é o excesso de adjetivação. Quando o escritor diligente procura desesperado palavras grandiosas para contar sua excelente história, acaba estragando tudo. Especialmente quando constitui simples redundância e nada acrescenta.

Em outro trecho de Eduardo Spohr " A aparência desse furioso infernal é como a de um gigante, alto como dois homens comuns e gordo como três ursos selvagens. O abdome ditalado, sempre à mostra, vive sendo acariciado pelas enormes mãos", e por aí vai, com elementos quebrando a rotina da narrativa por acréscimos desnecessários. (Não tenho nada contra esse livro, apenas estou lendo no momento).

V - Idéias Emprestadas

Não gosto só de ler, também me divirto assitindo. Fico pasmo quando assisto o seriado "Outcasts"   (BBC UK) e identifico a idéia central do livro "Crônicas Marcianas" de Ray Bradbury. Procuro bem devagar na ficha técnica da série e não encontro nenhuma referência, pesquiso mais e encontro no blog do 'autor', Ben Richards, suas alegadas inspirações para chegar ao produto final. Fala de "O Senhor das Moscas" e outros, mas nada sobre Martian Chronicles. Só achei um comentário curto de Val, lá no meio, perguntando "Ray Bradbury's Martian Chronicles anyone?". Não sou só eu.

Não acredito em fantasmas, bruxas, rótulo de xampu e orelha de livro. Tudo um bando de mentirosos. Quando a orelha diz que o autor é uma mistura de Tolkien com alguma coisa, é pegadinha na certa. Os caras estão mentindo para vender, tanto quanto mentem os xampus quando afirmam que vitamina pode entrar no corpo através da pele. Para subir, mentem ou assaltam os ombros de um gigante. Assim dizem de George R. R. Martin, do "Guerra dos Tronos", ou Game of Thrones, onde a fugacidade de um seriado de TV ousa se comparar à solidez de um clássico. O "Tronos" até que dá para ler com prazer, mas não é inesquecível.

Em publicidade, a gente costumava dizer que "chupava" uma idéia quando copiava um trabalho alheio. Nas diversas formas de expressão, uns chupam de outros sem cerimônia nenhuma.

De volta ao "Apocalipse", o herói passa duzentos anos no inferno sendo chicoteado todo dia até sangrar. Dean Winchester também, no seriado Supernatural, só fica uns 800 anos a mais.  Daí a comparação que já ouvi por aí, de que esse livro é uma mistura de Senhor dos Anéis com Supernatural. Essa não dá para aguentar. Desisto! Estou fora! Cansei! Vou desopilar lendo uma porcaria qualquer.

V - Personagens idênticos

Uma trama qualquer é composta de personagens. Óbvio. Eles são diferentes entre si, cada um tendo sua idade, sexo, formação, origem, cultura, motivação, etecétera. Muito óbvio. O autor ingênuo não pensa assim.

Para o ingênuo todos os personagens falam igual. Seja o herói, a heroína, o vilão, a vítima ou o covarde, todos enfim, falam no mesmo tom monocórdio. Usam os mesmos termos, pois têm o mesmo arsenal de palavras do autor, que não consegue respeitar a personalidade de cada um e permitir que se expressem como lhes seria natural. Se a história é épica, todos são superlativos e grandiloqüentes. Se a história é moral, todos são piegas e lamurientos. Se a história é infantil, todos são simplistas e repetitivos.

Essa limitação do autor cansa o leitor. Pode ser uma solução para quem tem pouco dinheiro para comprar livro, pois livro ruim demora para acabar. Mas ai não diverte ninguém. 

Literatura?

Claro que nenhum deles é literatura. Podem ser chamados disso por orelhas de livro, por releases comerciais e até por resenhas tendenciosas, mas não contém os mínimos elementos para que possam ser alçados a esse nível.

Apenas Naif.
P.S.
Até que enfim terminei "A Batalha do Apocalipse", foi penoso. Do livro ficou uma impressão que demorei um pouco para identificar. É como se tivesse sido escrito por outra pessoa, alguém muito mais velho e em outra época, talvez nos anos 70 ou 80. É só uma impressão.

Kitsch ou ruim demais - Péssimas capas e péssimos livros.


Livros bons e livros ruins, uma boa opinião.